JOSE OITICICA


Oliveira, Minas Gerais, Brasil, 1882 - Río de Janeiro, 1957

O MODELO

Se queres que outros creiam, crê primeiro,
Faze-te Boa-Nova e acende-a em ti.
Só terás gestos e aura de pioneiro
Se tua alma for surto e frenesi.
Quem deseja arrastar ao seu outeiro
Tribos sem deus precisa ser David,
Ter uma harpa, ter juntas de guerreiro,
Saber cantar e combater por si.
Sê mais tu, mas alguém, mais punho rude,
O sem par, o sozinho, o último, o Herói,
O que põe no melhor toda a virtude.
Torna-te exemplo... o exemplo é que constrói!
Finge até que o teu sonho não te ilude
E que a tua amargura não te dói.

O MERECIMENTO

Tenho calos nas mãos e searas na alma.
Semeio e colho para os meus irmãos.
Meu prêmio é merecer e minha palma
Ver todos menos dúbios e mais sãos.
Feliz de quem, tateando embora, enxalma
Chagas alheias com piedosas mãos
E, tirando de si, dá fôrça e calma
A inércia e ao malestar dos homens vãos.
No meio da subida eterna e rude,
Bendito o que tem braço para erguer,
Glória ao que me levante por virtude!
E infeliz do que, vendo alguém sofrer,
Podendo socorrê-lo, não o ajude
E passe, indiferente ao seu deber

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