ARTUR AZEVEDO

São Luís-Brasil, 1855 - Río de Janeiro, 1908


MUSA INFELIZ


Todo o cuidado nestas rimas ponho; 
Musa, peço-te, pois, que me remetas 
Versos que tenham rútilas facetas, 
E não revelem trovador bisonho. 

Meia noite bateu. Sai risonho... 
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! — 
O mais belo de todos os planetas 
N'um céu que parecia um céu de sonho. 

O mais belo de todos os prazeres 
Gozei, à doce luz dos olhos pretos 
Da mais bela de todas as mulheres! 

Pobres quartetos! míseros tercetos!... 
Musa, musa infeliz, dar-me não queres. 
O mais belo de todos os sonetos!... 

DESENGANO

A pensionista pálida que gosta 
(Fundada pretensão!) que a digam bela, 
E do colégio, à tarde, na janela, 
Para dar-me um sorriso se recosta; 

Que me escreve nas férias, de Bemposta, 
Aonde vai visitar a parentela, 
Pedindo-me que não me esqueça dela 
E dando-me uns beijinhos..., pela posta; 

Essa ninfa gentil dos olhos pretos, 
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia; 
Vergonha eterna para os meus bisnetos! 

Com um pançudo burguês, uma alimária 
Que não a sabe amar, nem faz sonetos, 
Vai casar-se amanhã na Candelária. 

1873

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