FRANCISCO JOAQUIM BINGRE



Portugal, 1763-1856

Á SUA VELHICE

Meu corpo assaz tem sido espicaçado 
Com buídos punhais, por mão da Morte, 
Que arrebatado tem, da minha corte, 
Grande rancho de quanto tenho amado. 

Não me poupa a cruel no triste estado 
Do caduco viver da minha Sorte: 
Quando era vigoroso, moço forte, 
Suportava com mais valor meu Fado. 

Então as minhas ásperas feridas 
Não tinham para mim tardias curas, 
Porque o Tempo receitas tem, sabidas. 

Mas velho e c'o vapor das sepulturas, 
Como posso curar as desabridas 
Chagas, das minhas novas amarguras? 

DEUS, INFINITO SER

Deus, Infinito ser, nunca criado, 
Sem princípio, nem fim, na Majestade 
Que no trono da Eterna Divindade 
Tens o Mundo num dedo dependurado: 

Tu estavas em Ti, não foste nado, 
O teu Ser era a tua Imensidade, 
Tu tiveste por berço a Eternidade, 
Tu, sem tempo, em Ti mesmo eras gerado! 

Tu és um fogo que arde sem matéria, 
Tu és perpétua luz, que não desmaia 
Fulgindo, sem cessar, na sala etérea! 

Tu és um mar de amor, que não tem praia, 
Trovão assustador da esfera aérea, 
Rei dum Reino Imortal, que não tem raia!... 

in 'Sonetos'


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